Sabemos que hoje o universo da Casa Conectada/Inteligente utiliza uma bela mistura de protocolos, aplicativos, API´s e maneiras, algumas
esdrúxulas, para que os produtos inteligentes se conversem minimamente.
O resultado desta bagunça é que o fabricante precisa
escolher para que lado ele vai, tendo a obrigação de mercado de ir para vários,
aumentando seu custo de desenvolvimento e suporte.
E o cliente, que não está ciente nem consciente desta
bagunça, fica perdido e não gosta de ter que se preocupar com possíveis incompatibilidades
entre estes fabricantes. Ele não entende porque o dispositivo que ele comprou
fala com o Google Assistant mas não fala com o Alexa, ou vice-versa.
Quando temos uma bagunça assim, quem costuma ganhar a briga é
o mais forte, impondo seus padrões ao mundo. E este padrão do mais forte estava
começando a se mostrar através da plataforma chinesa Tuya. De forma clara ou
disfarçada, mais e mais produtos aparecem no mercado utilizando esta plataforma;
algumas marcas nem se preocuparam em desenvolver aplicativos próprios,
utilizando um dos vários oferecidos pela Tuya.
Com isso, começamos a ver um padrão “de facto” começando a se
definir, como já aconteceu em muitos outros mercados menos tecnológicos.
Mas, algumas grandes empresas parecem estar preocupadas com
esta dominância e decidiram fazer algo a respeito. E estamos falando de
empresas realmente grandes, como a Apple, a Amazon e o Google!
Estas empresas decidiram que é chegada a hora de arrumar a
bagunça, para o bem dos usuários, dos fabricantes e delas mesmas. E se juntaram
à Zigbee Alliance (uma aliança de empresas promotoras do protocolo Zigbee,
muito utilizado em sistemas de automação residencial). O Zigbee Alliance trouxe
para o grupo empresas como Legrand, Schneider Electric, SamrtThings (Samsung), Silicon
Labs, Somfy e Wulian.
Este grupo de empresas acaba de lançar o que eles chamam de Project
Connected Home over IP, que pode, talvez, ser melhor traduzido como Projeto
Casa Conectada usando IP.
De forma resumida, o objetivo deste projeto é desenvolver um
novo padrão de conectividade, sem royalties, visando aumentar a compatibilidade
entre os produtos para a Casa Inteligente, tendo a segurança como pedra
fundamental deste desenvolvimento.
O grupo acredita que este novo padrão deva ser uma espécie
de evolução sobre o IP e que deva, de certa forma, incluir o WiFi 802.11ax (WiFi
6), o Thread (802.15.4), a versão IP do Bluetooth BLE 4.1,
4.2 e 5.0 e, posteriormente, redes celulares e a própria Ethernet. O Zigbee,
obviamente, também está incluso, principalmente no que se refere ao seu modelo
de manipulação de dados, o Dotdot (o Zigbee já segue o padrão 802.15.4).
Você pode obter um pouco mais de informações técnicas e acompanhar
o desenvolvimento neste link do projeto.
E como isso afeta os usuários? O Projeto promete
reduzir as incompatibilidades entre os produtos e simplificar os procedimentos
de conexão, sem que se perca a funcionalidade dos produtos hoje existentes.
E como isso afeta os desenvolvedores? O Projeto tem
em mente definir uma forma padronizada de conectividade, programação, manipulação
de erros e atualizações, compatível com todos os assistentes virtuais que incorporarem
o Projeto. Eles também estão cientes que deverão fornecer caminhos tanto para
manter a compatibilidade com o que vem sendo desenvolvido, quanto facilitar a
migração de produtos prontos para o novo padrão.
Mas, o que tudo isso significa na prática e com isso
afeta nossos fabricantes e desenvolvedores?
Se você é um fabricante já produzindo e vendendo ou uma startup
querendo entrar no mercado de venda de produtos, não pare de fazer o que está
fazendo, mas comece a considerar que uma parte do seu desenvolvimento vai virar
commodity, como hoje são os chipsets de comunicação. Do mesmo jeito que é
contraproducente desenvolvermos e fabricarmos chips de WiFi ou BLE, sendo melhor
comprá-los testados e certificados diretamente no mercado, a engenharia de
desenvolvermos soluções individuais e diferenciadas para a compatibilidade com o
mundo da casa inteligente também passará a ser contraproducente.
Como consequência, o fabricante precisará focar mais no que
seu produto faz, suas funções e utilidades, do que como ele faz a conectividade.
Esse novo padrão reduzirá custos e aumentará a concorrência. Logo chegará a
hora em que seu diferencial não será mais a conectividade, como hoje ninguém escolhe
uma TV por ser smart, já que todas são, em um grau ou outro.
Assim, se você é fabricante, continue apostando no mercado,
mas leve em consideração que muito em breve os diferenciais do seu produto deverão
ser inerentes ao seu uso.
Se você está mais ligado ao campo do software, das
aplicações dos dados e informações coletadas do mundo conectado, da inteligência
artificial e de seus usos em aplicações referentes à Casa Conectada/Inteligente,
continue com seu trabalho, já que sua grande contribuição é o desenvolvimento
da ideia, do algoritmo lógico e não da codificação. Sua vida ficará um pouco
mais fácil com a adoção deste novo padrão e suas soluções serão mais “internacionais”
pois poderão ser aplicadas mais globalmente sem muito preocupação com adaptação
de códigos. Isso implica em que você deve começar a pensar também onde suas soluções
possam ser úteis fora do contexto Brasil.
Em suma, tanto para fabricantes quanto desenvolvedores, este
novo padrão deverá trazer mais oportunidades, menores custos e mais concorrência,
implicando em um mercado cada vez mais volumoso e atraente.
E para o usuário tudo isso se traduz em mais opções, menores
preços, simplicidade, e confiança, já que as empresas que encabeçam esta
iniciativa sabem o que perdem se não entregarem um padrão que respeite tanto a
universalidade quanto a segurança e proteção das informações pessoais de seus
usuários.
Só nos resta acompanhar o desenvolvimento deste novo padrão
e torcer que atinja seus objetivos. Este esforço, se bem sucedido, deixará a Casa
Conectada/Inteligente mais perto da sua solução de conectividade ideal.
A este respeito, leia também a nossa coluna na revista "Homr Theater & Casa Digital" do mes de janeiro 2020: http://www.aureside.org.br/_pdf/ht_aureside.pdf
A este respeito, leia também a nossa coluna na revista "Homr Theater & Casa Digital" do mes de janeiro 2020: http://www.aureside.org.br/_pdf/ht_aureside.pdf
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