22 dezembro 2018

Os Desafios do Do-It-Yourself – Faça Você Mesmo


O conceito de Faça-Você-Mesmo (Do-It-Yourself em inglês, ou DIY) começa a ganhar algum destaque no Brasil, talvez devido a políticas de comercialização que alguns fabricantes começaram a adotar. E este ponto está se tornando mais forte quando falamos de produtos relacionados com a Casa Inteligente, utilizando as tecnologias envolvidas com a Internet das Coisas.

Se o fabricante oferece um produto que exige um instalador, isto pode inibir o comprador, pois há um custo extra que ele deve considerar. Talvez este comprador prefira conversar diretamente com o instalador e esperar dele a sugestão de qual produto comprar. E esta sugestão pode não ser o que o fabricante oferece, destruindo qualquer esforço de marketing e publicidade que ele tenha feito. Então, este fabricante prefere forçar a “facilidade” de instalação do seu produto, mesmo correndo o risco de frustrar o comprador.

Há produtos que claramente não são DIY. Exemplos típicos são aparelhos de ar condicionado. Estes equipamentos exigem cuidados com a fiação elétrica, conhecimento para seu correto posicionamento e mão-de-obra razoavelmente especializada para a fixação, passagem de cabos e drenos (sim, há drenos a serem instalados).

Então o comprador prefere conversar com seu vizinho, parente ou amigo e, mais que a recomendação de qual aparelho comprar, ele quer a recomendação de quem contratar para instalar. Este instalador, por sua vez, vai recomendar aquele produto que lhe dê uma boa margem e mínimas dores de cabeça. Se for um instalador sério, escolherá marcas de renome, que tenham produtos de qualidade.
Então, dificilmente um fabricante de aparelhos de ar condicionado irá classificar seu produto como DIY. Sua campanha de marketing será dirigida a outros pontos, como silêncio, eficiência e economia, dando ao comprador argumentos para discutir com o instalador e direcionar a compra a seu produto.

Mas há outros produtos que podem ser instalados diretamente pelo comprador. Um aparelho de TV não necessita de um profissional para sua instalação. Basta o comprador ler o manual, seguir as instruções e pronto. O comprador pode ainda pedir ajuda a um parente ou amigo e assim, nem precisará ler o manual! Várias TV´s até trazem o passo-a-passo na própria tela! Mas aqui, o fabricante de TV não precisa dizer que seu produto é DIY; todos já consideramos que sejam!

Contudo, neste caso veremos que na grande maioria das vezes o produto é subutilizado pois, depois de conseguir ativar as funções básicas para as quais foi comprada, ninguém se preocupa em ler o manual e descobrir o que mais a TV pode fazer!

Em todo caso, temos os produtos que declaradamente precisam de instaladores e temos aqueles que não precisam de qualquer ajuda externa.

Muitos produtos para a Casa Inteligente estão sendo oferecidos como DIY, mas talvez eles mereçam mais cuidado por parte do comprador. Comecemos por uma câmera sem fio daquelas que colocamos em nossa casa para dar uma vigiada no que acontece (ou simplesmente para brincar de tecnologia). Ela custa barato, é pequena e deveria ser fácil instalar, portanto pode ser vendida como DIY.

Primeira recomendação ao comprador: se você não é um bom conhecedor das tecnologias, evite comprar produtos “asiáticos” importados esporadicamente, sem a devida representatividade em solo brasileiro. Além dos problemas com garantia e suporte (e até com aprovações de órgãos como ANATEL), o manual que acompanha o produto é impossível de ser entendido. A tradução é muito mal feita, dificultando qualquer compreensão do que deve ser feito para instalar a câmera corretamente. Prefira produtos que apresentem o mínimo de cuidado nesse assunto.

Mas, tudo bem! Vamos à instalação DIY. Esta câmera vai usar sua rede WiFi e um aplicativo próprio para que você possa ver as imagens e feeds e até mesmo comandar a câmera (algumas permitem o que chamamos de PTZ, que é a possibilidade movimentar o ângulo da câmera e de dar zoom). Em linhas gerais, você precisa saber:

  • O que QR code, e como lê-lo (necessário para localizar o aplicativo para seu smartphone).
  • Como instalar um aplicativo em seu smartphone
  • O nome e a senha da sua rede WiFi (para passar esta informação para a câmera)
  • Como conectar seu smartphone a outra rede (a câmera inicialmente cria sua própria rede WiFi para que você possa se conectar a ela e lhe ensinar o nome e a senha da sua rede)
  • Como permitir que sua câmera fale com a nuvem do fabricante (em geral sua rede está com proteção mínima e esta conexão acontecerá sem você nem saber)
Depois você precisa saber o que a câmera pode fazer (tem visão noturna? Consegue gravar imagens? Tem microfone e alto falante?) e como usar o aplicativo (o que muitas vezes não é tão intuitivo assim).


Nada disso o assustou? Então pode ir em frente. Se você comprou uma daquelas câmeras “asiáticas”, você pode ter algumas pequenas surpresas, como falhas no processo de configuração se usar um Iphone mas nenhum problema com um Android (ou vice-versa), mas com persistência e uso da experiência (sua ou de terceiros) vai acabar conseguindo

Mas, se os conhecimentos exigidos acima não fazem parte do seu dia-a-dia, como fazer? Pode pedir ajuda ao seu filho, ao seu vizinho, um amigo... mas contratar alguém para fazer a instalação não vai fazer muito sentido, já que este especialista vai cobrar mais caro que a própria câmera (se for em São Paulo, só o deslocamento pode custar algumas horas de serviço a ser cobrado do cliente).

Podemos, então, dizer que esta câmera é DIY? Fico na dúvida, mas se mudarmos as “condições de contorno”, podemos “ensinar” o cliente de uma forma mais eficiente, tornando-o um DIY. Minimamente, o fabricante pode fornecer manuais melhores, com passo-a-passo bem estruturado, tutoriais (gravados no YouTube) e suporte remoto (via chat pelo site). Com estes cuidados ele pode dizer que o produto não precisa de instalador especializado e que o próprio comprador pode fazer a instalação.

Será que podemos extrapolar e incluir mais algumas câmeras na residência? Digamos, umas quatro ou cinco? Em geral não deve haver problemas... ou haverá? Eu diria que as maiores dificuldades estariam em saber usar o aplicativo com várias câmeras e com a velocidade de transmissão, uma vez que pode começar a deixar seu WiFi mais lento. Você vai começar a reclamar da lentidão do Netflix, do YouTube, etc., vai culpar o provedor de serviços, mas não vai se lembrar de que as cinco câmeras podem estar mandando suas imagens continuadamente para a Nuvem, principalmente se você pediu para que elas gravassem as imagens para consultar posteriores.


Aí você decide dar mais um passo e monta um sistema de segurança, com algumas câmeras, alguns sensores de movimento e, quem sabe, uns dois sensores de porta aberta. Tudo isso ainda é DIY e ainda está na sua alçada de conhecimento?

Com algum esforço, alguma pesquisa e alguma ajuda, você pode até fazer funcionar, mas com que qualidade, performance, segurança e confiabilidade?

Será que valeu a pena economizar a mão de obra do instalador?

Quando pensamos na Casa Inteligente, a situação se agrava, já que teremos muitos produtos de diferentes fabricantes interagindo e compartilhando sua rede WiFi e sua atenção. Se olharmos para cada produto isoladamente, eles até que são fáceis de instalar e, se comprados de fabricantes sérios, são bem documentados e têm suporte adequado. Cada um pode ser oferecido ao mercado como um produto DIY, mas quando começamos a misturar fabricantes, a documentação não nos ajudará diretamente e o suporte oferecido pode não conhecer o produto “estranho” ao fabricante.

Nestes casos, mais que conhecimento, você precisa paciência e perseverança. Os produtos vão funcionar conforme prometido e vão interagir conforme anunciado, mas os detalhes de instalação, que são inerentes a cada residência, podem requerer uma pessoa que já tenha “apanhado” antes e usado sua paciência e perseverança para resolver o desafio, criando experiência. Para você, cada experiencia é única e não deverá se repetir tão cedo; já para o especialista, cada desafio resolvido com paciência e persistência se tornou um conhecimento a mais, facilitando os próximos desafios.

Em resumo, se você acha que tem conhecimentos suficientes para se intitular DIY, pense nisso como um hobby, uma diversão. Use seus conhecimentos para alguns testes de conceito, para ver se gosta das funcionalidades, se traz algum benefício. Mas, se decidir ir em frente e partir para um universo mais integrado, com mais equipamentos interconectados e com mais responsabilidade, pense em contratar um especialista. Ele o ajudará a ter uma solução mais robusta, mais segura e mais eficiente.

Lembre-se, os produtos inteligentes podem ser DIY, mas uma Casa Inteligente seguramente não o será.

15 dezembro 2018

Mais Um Lá Fora, e Aqui, Quem Será o Primeiro?


Eu tenho escrito vários artigos focando na necessidade de um mercado de varejo para produtos relacionados com a Casa Inteligente. Acredito que haja a necessidade de termos redes varejistas especializadas em tecnologia e produtos inteligentes para que o mercado cresça no Brasil.

Estes varejistas não podem ser genéricos, precisam se dedicar a este mercado, tendo uma equipe especializada e incluindo servios em sua oferta aos clientes. Uma análise completa de como vejo este mercado “acontecendo” pode ser encontrada numa série de artigos neste blog, sendo o primeiro CasaInteligente no Brasil – Parte 1 – Produtos. Uma das primeiras empresas a entrar neste mercado especializado nos Estados Unidos foi a Best Buy, mas já temos notícia de outra, a VectorSecurity.

Pois bem, agora a Office Depot acaba de anunciar uma iniciativa similar. Esta rede varejista com mais de 1400 lojas e presença na Internet começa a oferecer serviços de suporte e instalação para produtos relacionados com o Google Home e com a Nest.

Apesar de diferenças significativas entre o Brasil e os Estados Unidos, alguns desafios são parecidos e um deles é a extensão geográfica. Uma Office Depot com 1400 lojas pode até atender adequadamente o mercado americano, mas qual seria a rede varejista brasileira com abrangência adequada?

Aqui vejo dois caminhos: ou apostamos em varejistas generalistas (como Casas Bahia ou Lojas Americanas), que não têm o perfil mas têm uma grade rede de lojas, ou apostamos em redes menores mas mais focadas no mercado de dispositivos inteligentes.

No primeiro caso as grandes varejistas precisarão aprender a cativar um tipo de público específico, treinar um grupo de funcionários para o atendimento e visualizar lucro em prestação de serviços e venda continuada.

No segundo caso o desafio está em, por estar atendendo em áreas pontuais, conseguir gerar um volume de negócios que justifique e sustente as equipes de suporte e consultoria que atenderão a este mercado de Casa Inteligente.

Vamos continuar a acompanhar as notícias e, quem sabe, logo poderei anunciar uma iniciativa brasileira neste mercado.

25 novembro 2018

NETATMO e LEGRAND - Podemos Seguir Este Exemplo?



Imagine uma empresa fundada em 2011 dedicada ao mercado de produtos inteligentes para sua casa. Ela cria seu primeiro produto, investe em tecnologia e em marketing, participa de feiras, desenvolve outros produtos e 2015 já tem 100 funcionários. Em 2017 consegue dois grandes players do mercado como sócios para, em 2018, ser completamente adquirida por um destes grandes players.

Esta empresa é europeia e cresceu visando este mercado. Como consequência, hoje ela tem três grupos de produtos: Segurança, Energia e Clima (incluindo Qualidade do Ar).

A linha de produtos em Segurança inclui câmeras internas e externas, sensores de fumaça, sensores de portas e janelas e uma sirene. Até aí nada demais. Mas ao examinarmos os produtos mais de perto vemos alguns cuidados com inovação e qualidade que merecem destaque. A câmera interna, por exemplo, tem reconhecimento facial. Com isso, ela pode reconhecer as pessoas que foram previamente cadastradas e considerar como intruso qualquer outra pessoa não reconhecida. Ela também pode ser acionada pelo som de um alarme, iniciando uma gravação e mandando um aviso ao usuário através de seu aplicativo. E pode ser diretamente comandada pelo Google Assistant, Siri ou até mesmo por mensagens do Facebook Messenger. E é uma peça com design elegante.


Se formos analisar a fundo, muito provavelmente não há nenhuma grande inovação tecnológica. Sua inovação está em juntar o que já existe, entender o que o mercado procura e dar uma “inteligência artificial” direcionada e útil.

A sirene pode ser integrada à câmera; tanto a câmera pode disparar a sirene com a detecção de intrusos quanto a sirene, disparada por outro equipamento, pode disparar a câmera. O que tem de inovação? Talvez possamos considerar o fato da sirene poder ser programada para emitir sons que simulem a presença de alguém na residência como inovação.

Esta solução de Segurança encontraria no Brasil um público interessado nestes produtos, pois atende bem aos interesses dos moradores locais.

E na Energia? O foco aqui é um termostato que controla os circuitos de aquecimento, uma solução bastante comum em países frios como na Europa. Nenhuma grande novidade: um termostato que comanda relés sem fio para ligar ou desligar os aquecedores ou as válvulas de um sistema de aquecimento central (ou mesmo um aquecedor específico em um ambiente). A novidade é oferecerem válvulas para comando de radiadores de aquecimento, permitindo que as temperaturas sejam comandadas ambiente por ambiente: um controle geral para o aquecedor principal e controles locais regulando a vazão de água quente por um determinado radiador, permitindo om controle local de temperatura. E tudo isso de forma simples, com um produto pequeno e elegante.

Esta solução, diretamente como apresentada, não tem muito futuro no Brasil, já que não somos um país de baixas temperaturas. Mas será que esta ideia poderia ser adaptada para aparelhos de ar condicionado?

No grupo de Clima temos um conjunto de produtos que ainda não vi serem oferecidos no Brasil de forma consistente. Temos uma “estação meteorológica” para uso interno, capaz de medir temperatura, umidade, qualidade do ar e nível de ruído. Podemos ter também uma estação para uso externo que mede também a pressão atmosférica. E temos dois acessórios: medidores de chuva (com informação de quantidade) e anemômetros (medidores de direção e velocidade do vento).

A estação interna avisa, ainda, quando a casa precisa ser ventilada pela detecção do alto nível de CO2.

A ideia por traz disso é que o usuário possa monitorar as variações climáticas ao longo do tempo. Não faz muito mais do que coletar e oferecer informações, mas sabemos que há povos neste planeta que adoram ter informações, mesmo sem saber o que fazer com elas.

Neste grupo não há nenhum sinal forte de inovação, mas são produtos que se integram visualmente (e só visualmente) aos demais já mencionados.

Então, temos uma empresa europeia relativamente nova, com uma linha de produtos inteligentes, um bom marketing e um bom design, com alguns pontos inovadores, focando muito no uso de tecnologias existentes. Esta empresa não precisou desenvolver tecnologias; ela soube utilizar as existentes de uma forma inovadora.

Hoje esta empresa tem aproximadamente um milhão e trezentos mil produtos vendidos em todo o mundo (principalmente Europa), faturamento anual de 45 milhões de euros e mais de duzentos empregados.

Estou falando da NETATMO, que foi recentemente comprada pela LEGRAND.

Tenho certeza que o que a LEGRAND procura não são especificamente os produtos, mas sim a inteligência humana por trás destes produtos.

Será que algo parecido poderia ocorrer com uma empresa brasileira?

Eu vislumbro um caminho de sucesso. Inicialmente precisamos esquecer a regionalidade e focar no mercado mundial. Afinal, o que impediria de termos no Brasil uma empresa como a NETATMO desenvolvendo produtos para a Casa Inteligente?

Esta empresa deve começar com um perfil internacional (para não dizer globalizado). E o que significa isso? Em termos gerais, significa que ela deve olhar para as tecnologias, os mercados e os fornecedores dentro e fora do Brasil. Ela deve acompanhar e contribuir com as tecnologias desenvolvidas em qualquer parte do planeta; ela deve considerar que seus produtos serão vendidos em todas as partes do mundo; e ela deve considerar que sua fabricação pode se dar em algum país asiático.

Este processo não é para amadores nem para pouco investimento. Deve ser bem planejado, bem fundeado e muito bem gerenciado.

Há, é verdade, dificuldades adicionais inerentes à realidade brasileira. Estamos falando de burocracias, custos indiretos e dificuldades com idiomas e processos internacionais de transações financeiras. Mas, para compensar, esta empresa contará com um mercado potencial nas quais pouquíssimas outras empresas estão apostando adequadamente. Ela terá a vantagem de já conhecer o usuário brasileiro, de falar seu idioma e de estar presente num país que não fala inglês e não gosta de importar produtos individualmente. E não podemos nos esquecer que, de uma forma ou outra, a Internet das Coisas é uma prioridade tecnológica com apoio governamental.

Assim, não vejo porque uma empresa brasileira não poderia se destacar. Os passos são “simples”:
  • Conceber uma linha de produtos que faça uso criativo e útil das tecnologias
  • Pensar no mercado local e internacional
  • Conhecer necessidades de outros mercados e dominar os principais idiomas
  • Profissionalizar o design e a fabricação
  • Desenvolver fornecedores locais e em países conhecidos pelo baixo custo
  • Desenvolver uma campanha de marketing visando o mercado mundial e a busca de investidores
  • Criar uma infraestrutura de suporte em vários idiomas
  • Criar uma estrutura de vendas online e desenvolver distribuidores
  • Criar parcerias com os gigantes do mercado

A empresa que queira focar apenas no mercado nacional terá que abrir mão de algumas coisas, como o design profissional, a fabricação a baixo custo e a busca contínua de investidores. O investimento será menor, mas a abrangência e a qualidade do produto não conseguirá competir com outras empresas que tenham esta visão mais globalizada.

Definitivamente não é um mercado para amadores ou para aqueles com poucas ambições. O sucesso depende de conseguir um nível de presença que chame a atenção dos grandes players, como a NETATMO chamou a atenção da LEGRAND.