20 janeiro 2019

Mais Uma Visão Pessoal da Internet das Coisas


Eu participo de alguns grupos no Whatsapp e num deles, de especialistas em Internet das Coisas, surgiu um questionamento do que seria a melhor definição para Internet das Coisas. Infelizmente no momento eu não pude dar minha contribuição e agora, alguns dias depois, vi que o assunto se esticou um pouco.

Pensei em colocar minha opinião no grupo, mas vi que eu ia me estender demais. Então escrevo este post onde tento “desenhar” a Internet das Coisas como a vejo. Me desculpem se minha visão é tendenciosa para assuntos como Casa Conectada e Casa Inteligente. Este é o meu foco presente e é onde vejo que há a maior desinformação e, até, enganação. Eu sei que em áreas como a industrial e a rural os objetivos são mais claros e o uso de pedaços do conceito de Internet das Coisas para atender a necessidades claramente especificadas é o que interessa.

Antes de falar de Internet das Coisas deixe-me avisar que já tenho “vários alguns” anos de vida no mercado de automação industrial e, ao longo do tempo, vi a tendência de usar novas roupagens em velhas tecnologias. Muda-se o nome, muda-se um pouco o enfoque e tudo parece novo. Isto funcionou muito bem (e provavelmente ainda funcione) em mercados americanos, onde a produtividade dentro de uma empresa é movida pela competitividade. Então, toda vez que você muda a roupagem você dá novas energias aos mais afoitos para correrem atrás desta “nova tecnologia” e serem os “especialistas” dentro dos seus grupos.

Mas, vamos à Internet das Coisas. Eu trabalhei em um projeto muito interessante onde uma distribuidora de gás encanado precisava monitorar estações remotas de redução de pressão e optaram por contratar uma empresa que desenvolveu um produto alimentado a painel solar que captava as informações dos sensores de pressão, vazão e temperatura e os enviava periodicamente a um servidor via rede celular. Isto é Internet das Coisas? Obviamente que não. Este projeto foi no início dos anos 2000 e nós chamávamos isso Telemetria.

Então, o que é Internet das Coisas? Se você não quer realmente inventar nada de revolucionário, podemos dizer que Internet das Coisas é uma evolução do M2M (Machine-to-Machine – Máquina-à-Máquina), onde acrescentamos:
  • Mais opções de comunicação sem fio
  • Mais comunicação peer-to-peer
  • Sensores e atuadores primários mais baratos, compactos e de baixo consumo
  • Processamento em servidores na Nuvem (diferentemente de um conjunto dedicado em um determinado datacenter)
  • O uso de Inteligência Artificial (que antes chamávamos de Sistemas Neurais ou Lógica Fuzzy – para os preciosistas, eu sei que não são exatamente as mesmas coisas, mas buscavam as mesmas funções)
  • E a grande novidade: dados, muitos dados, um volume gigantesco de dados, vindos dos equipamentos do sistema ou de fontes totalmente fora do contexto. Estes dados, quando devidamente tratados e manipulados, aceleram a capacidade de aprender e inferir.
·       Mas eu prefiro ver a Internet das Coisas de uma forma diferente. Eu prefiro focar nas diferenças que deveriam existir para que os benefícios sejam realmente gigantescos.

E há alguns pontos que eu acho crítico que sejam desenvolvidos a contento para que eu possa dizer em letras maiúsculas: temos INTERNET DAS COISAS.

A primeira é padronização. Falo de padronização nas redes, principalmente as sem fio, e nas formas de usá-las. Eu quero poder trocar um sensor de movimento de um fabricante por outro de um outro fabricante sem nenhuma dor de cabeça. Não quero reprogramar lógicas ou endereços.

Falo também de padronização na forma de obter dados e enviar comandos. Isto permitiria que uma certa fonte de dados possa ser utilizado por inúmeros consumidores destes dados.

Eu quero interfaces com o usuário que possam conversar com todos os dispositivos de forma completa. Não quero uma interface para cada tipo de dispositivo ou para cada fabricante. Este assunto é especialmente doloroso quando pensamos na Casa Conectada (que ainda não é Inteligente).

Eu quero a universalidade de dados, com as devidas proteções de privacidade e segurança. Sei que é complexo, mas acredito que os dados não pessoais deveriam ser de todos. Se meu vizinho tem um sensor de luminosidade que ele usa para acender as luzes do portão, porque não posso usar este mesmo sensor (ou os dados dele) para minhas luzes? Ou, menos intrusivo, porque não posso usar aos dados dos sensores de luminosidade da iluminação pública da minha rua ao invés de gastar dinheiro e energia comprando um sensor só para mim?

E eu quero muita inteligência, seja humana no desenvolvimento de aplicações (e não de aplicativos), seja artificial, analisando e inferindo continuadamente possíveis relações de causa e efeito e com isso, prevendo e prevenindo situações negativas.

Quando tivermos a padronização em comunicação, a interoperabilidade e a interconectividade, aliadas à universalidade de dados, teremos a INTERNET DAS COISAS.

Não estamos tão longe assim, mas será que todos querem chegar ao mesmo lugar que eu?

22 dezembro 2018

Os Desafios do Do-It-Yourself – Faça Você Mesmo


O conceito de Faça-Você-Mesmo (Do-It-Yourself em inglês, ou DIY) começa a ganhar algum destaque no Brasil, talvez devido a políticas de comercialização que alguns fabricantes começaram a adotar. E este ponto está se tornando mais forte quando falamos de produtos relacionados com a Casa Inteligente, utilizando as tecnologias envolvidas com a Internet das Coisas.

Se o fabricante oferece um produto que exige um instalador, isto pode inibir o comprador, pois há um custo extra que ele deve considerar. Talvez este comprador prefira conversar diretamente com o instalador e esperar dele a sugestão de qual produto comprar. E esta sugestão pode não ser o que o fabricante oferece, destruindo qualquer esforço de marketing e publicidade que ele tenha feito. Então, este fabricante prefere forçar a “facilidade” de instalação do seu produto, mesmo correndo o risco de frustrar o comprador.

Há produtos que claramente não são DIY. Exemplos típicos são aparelhos de ar condicionado. Estes equipamentos exigem cuidados com a fiação elétrica, conhecimento para seu correto posicionamento e mão-de-obra razoavelmente especializada para a fixação, passagem de cabos e drenos (sim, há drenos a serem instalados).

Então o comprador prefere conversar com seu vizinho, parente ou amigo e, mais que a recomendação de qual aparelho comprar, ele quer a recomendação de quem contratar para instalar. Este instalador, por sua vez, vai recomendar aquele produto que lhe dê uma boa margem e mínimas dores de cabeça. Se for um instalador sério, escolherá marcas de renome, que tenham produtos de qualidade.
Então, dificilmente um fabricante de aparelhos de ar condicionado irá classificar seu produto como DIY. Sua campanha de marketing será dirigida a outros pontos, como silêncio, eficiência e economia, dando ao comprador argumentos para discutir com o instalador e direcionar a compra a seu produto.

Mas há outros produtos que podem ser instalados diretamente pelo comprador. Um aparelho de TV não necessita de um profissional para sua instalação. Basta o comprador ler o manual, seguir as instruções e pronto. O comprador pode ainda pedir ajuda a um parente ou amigo e assim, nem precisará ler o manual! Várias TV´s até trazem o passo-a-passo na própria tela! Mas aqui, o fabricante de TV não precisa dizer que seu produto é DIY; todos já consideramos que sejam!

Contudo, neste caso veremos que na grande maioria das vezes o produto é subutilizado pois, depois de conseguir ativar as funções básicas para as quais foi comprada, ninguém se preocupa em ler o manual e descobrir o que mais a TV pode fazer!

Em todo caso, temos os produtos que declaradamente precisam de instaladores e temos aqueles que não precisam de qualquer ajuda externa.

Muitos produtos para a Casa Inteligente estão sendo oferecidos como DIY, mas talvez eles mereçam mais cuidado por parte do comprador. Comecemos por uma câmera sem fio daquelas que colocamos em nossa casa para dar uma vigiada no que acontece (ou simplesmente para brincar de tecnologia). Ela custa barato, é pequena e deveria ser fácil instalar, portanto pode ser vendida como DIY.

Primeira recomendação ao comprador: se você não é um bom conhecedor das tecnologias, evite comprar produtos “asiáticos” importados esporadicamente, sem a devida representatividade em solo brasileiro. Além dos problemas com garantia e suporte (e até com aprovações de órgãos como ANATEL), o manual que acompanha o produto é impossível de ser entendido. A tradução é muito mal feita, dificultando qualquer compreensão do que deve ser feito para instalar a câmera corretamente. Prefira produtos que apresentem o mínimo de cuidado nesse assunto.

Mas, tudo bem! Vamos à instalação DIY. Esta câmera vai usar sua rede WiFi e um aplicativo próprio para que você possa ver as imagens e feeds e até mesmo comandar a câmera (algumas permitem o que chamamos de PTZ, que é a possibilidade movimentar o ângulo da câmera e de dar zoom). Em linhas gerais, você precisa saber:

  • O que QR code, e como lê-lo (necessário para localizar o aplicativo para seu smartphone).
  • Como instalar um aplicativo em seu smartphone
  • O nome e a senha da sua rede WiFi (para passar esta informação para a câmera)
  • Como conectar seu smartphone a outra rede (a câmera inicialmente cria sua própria rede WiFi para que você possa se conectar a ela e lhe ensinar o nome e a senha da sua rede)
  • Como permitir que sua câmera fale com a nuvem do fabricante (em geral sua rede está com proteção mínima e esta conexão acontecerá sem você nem saber)
Depois você precisa saber o que a câmera pode fazer (tem visão noturna? Consegue gravar imagens? Tem microfone e alto falante?) e como usar o aplicativo (o que muitas vezes não é tão intuitivo assim).


Nada disso o assustou? Então pode ir em frente. Se você comprou uma daquelas câmeras “asiáticas”, você pode ter algumas pequenas surpresas, como falhas no processo de configuração se usar um Iphone mas nenhum problema com um Android (ou vice-versa), mas com persistência e uso da experiência (sua ou de terceiros) vai acabar conseguindo

Mas, se os conhecimentos exigidos acima não fazem parte do seu dia-a-dia, como fazer? Pode pedir ajuda ao seu filho, ao seu vizinho, um amigo... mas contratar alguém para fazer a instalação não vai fazer muito sentido, já que este especialista vai cobrar mais caro que a própria câmera (se for em São Paulo, só o deslocamento pode custar algumas horas de serviço a ser cobrado do cliente).

Podemos, então, dizer que esta câmera é DIY? Fico na dúvida, mas se mudarmos as “condições de contorno”, podemos “ensinar” o cliente de uma forma mais eficiente, tornando-o um DIY. Minimamente, o fabricante pode fornecer manuais melhores, com passo-a-passo bem estruturado, tutoriais (gravados no YouTube) e suporte remoto (via chat pelo site). Com estes cuidados ele pode dizer que o produto não precisa de instalador especializado e que o próprio comprador pode fazer a instalação.

Será que podemos extrapolar e incluir mais algumas câmeras na residência? Digamos, umas quatro ou cinco? Em geral não deve haver problemas... ou haverá? Eu diria que as maiores dificuldades estariam em saber usar o aplicativo com várias câmeras e com a velocidade de transmissão, uma vez que pode começar a deixar seu WiFi mais lento. Você vai começar a reclamar da lentidão do Netflix, do YouTube, etc., vai culpar o provedor de serviços, mas não vai se lembrar de que as cinco câmeras podem estar mandando suas imagens continuadamente para a Nuvem, principalmente se você pediu para que elas gravassem as imagens para consultar posteriores.


Aí você decide dar mais um passo e monta um sistema de segurança, com algumas câmeras, alguns sensores de movimento e, quem sabe, uns dois sensores de porta aberta. Tudo isso ainda é DIY e ainda está na sua alçada de conhecimento?

Com algum esforço, alguma pesquisa e alguma ajuda, você pode até fazer funcionar, mas com que qualidade, performance, segurança e confiabilidade?

Será que valeu a pena economizar a mão de obra do instalador?

Quando pensamos na Casa Inteligente, a situação se agrava, já que teremos muitos produtos de diferentes fabricantes interagindo e compartilhando sua rede WiFi e sua atenção. Se olharmos para cada produto isoladamente, eles até que são fáceis de instalar e, se comprados de fabricantes sérios, são bem documentados e têm suporte adequado. Cada um pode ser oferecido ao mercado como um produto DIY, mas quando começamos a misturar fabricantes, a documentação não nos ajudará diretamente e o suporte oferecido pode não conhecer o produto “estranho” ao fabricante.

Nestes casos, mais que conhecimento, você precisa paciência e perseverança. Os produtos vão funcionar conforme prometido e vão interagir conforme anunciado, mas os detalhes de instalação, que são inerentes a cada residência, podem requerer uma pessoa que já tenha “apanhado” antes e usado sua paciência e perseverança para resolver o desafio, criando experiência. Para você, cada experiencia é única e não deverá se repetir tão cedo; já para o especialista, cada desafio resolvido com paciência e persistência se tornou um conhecimento a mais, facilitando os próximos desafios.

Em resumo, se você acha que tem conhecimentos suficientes para se intitular DIY, pense nisso como um hobby, uma diversão. Use seus conhecimentos para alguns testes de conceito, para ver se gosta das funcionalidades, se traz algum benefício. Mas, se decidir ir em frente e partir para um universo mais integrado, com mais equipamentos interconectados e com mais responsabilidade, pense em contratar um especialista. Ele o ajudará a ter uma solução mais robusta, mais segura e mais eficiente.

Lembre-se, os produtos inteligentes podem ser DIY, mas uma Casa Inteligente seguramente não o será.

15 dezembro 2018

Mais Um Lá Fora, e Aqui, Quem Será o Primeiro?


Eu tenho escrito vários artigos focando na necessidade de um mercado de varejo para produtos relacionados com a Casa Inteligente. Acredito que haja a necessidade de termos redes varejistas especializadas em tecnologia e produtos inteligentes para que o mercado cresça no Brasil.

Estes varejistas não podem ser genéricos, precisam se dedicar a este mercado, tendo uma equipe especializada e incluindo servios em sua oferta aos clientes. Uma análise completa de como vejo este mercado “acontecendo” pode ser encontrada numa série de artigos neste blog, sendo o primeiro CasaInteligente no Brasil – Parte 1 – Produtos. Uma das primeiras empresas a entrar neste mercado especializado nos Estados Unidos foi a Best Buy, mas já temos notícia de outra, a VectorSecurity.

Pois bem, agora a Office Depot acaba de anunciar uma iniciativa similar. Esta rede varejista com mais de 1400 lojas e presença na Internet começa a oferecer serviços de suporte e instalação para produtos relacionados com o Google Home e com a Nest.

Apesar de diferenças significativas entre o Brasil e os Estados Unidos, alguns desafios são parecidos e um deles é a extensão geográfica. Uma Office Depot com 1400 lojas pode até atender adequadamente o mercado americano, mas qual seria a rede varejista brasileira com abrangência adequada?

Aqui vejo dois caminhos: ou apostamos em varejistas generalistas (como Casas Bahia ou Lojas Americanas), que não têm o perfil mas têm uma grade rede de lojas, ou apostamos em redes menores mas mais focadas no mercado de dispositivos inteligentes.

No primeiro caso as grandes varejistas precisarão aprender a cativar um tipo de público específico, treinar um grupo de funcionários para o atendimento e visualizar lucro em prestação de serviços e venda continuada.

No segundo caso o desafio está em, por estar atendendo em áreas pontuais, conseguir gerar um volume de negócios que justifique e sustente as equipes de suporte e consultoria que atenderão a este mercado de Casa Inteligente.

Vamos continuar a acompanhar as notícias e, quem sabe, logo poderei anunciar uma iniciativa brasileira neste mercado.