O avanço do Matter e de novos padrões da CSA (Connectivity Standards Alliance) mostra que a interoperabilidade está deixando de ser apenas uma questão da casa conectada para assumir um papel estratégico em edifícios comerciais, hotéis, indústrias e outros ambientes complexos.
Durante
anos, um dos maiores desafios da Internet das Coisas (IoT) tem sido fazer com
que dispositivos, sistemas e plataformas de diferentes fabricantes consigam
trabalhar de forma integrada.
No
mercado residencial, essa discussão ganhou enorme visibilidade com o Matter,
padrão desenvolvido pela Connectivity Standards Alliance (CSA) com a proposta
de criar uma linguagem comum para os dispositivos conectados.
Mas um
movimento recente da organização indica que essa visão está se tornando muito
mais abrangente.
Durante o
Unify 2026, evento realizado em Austin, nos Estados Unidos, a CSA deixou
claro que sua estratégia de interoperabilidade não pretende ficar restrita ao
Smart Home. Edifícios comerciais, instalações industriais, gestão de energia,
segurança cibernética, controle de acesso e até aplicações envolvendo
inteligência artificial estão entrando nessa discussão.
Essa
evolução pode representar um passo importante para o desenvolvimento dos edifícios
verdadeiramente inteligentes.
Da conectividade à interoperabilidade real
Fazer uma
lâmpada inteligente se comunicar com um assistente de voz é relativamente
simples quando comparado aos desafios encontrados em um edifício.
Em uma
edificação comercial podem coexistir sistemas de HVAC, iluminação, controle de
acesso, sensores de ocupação, medição de energia, armazenamento energético,
automação predial, plataformas de gestão e aplicações em nuvem.
Muitas
vezes, esses sistemas são fornecidos por fabricantes diferentes e utilizam protocolos,
bancos de dados e arquiteturas distintas.
O
verdadeiro desafio, portanto, não é apenas conectar equipamentos, mas
permitir que eles troquem informações úteis e compreensíveis entre si.
Essa
mudança de conceito é particularmente importante para projetistas, integradores
e gestores de edifícios.
Em um
ambiente realmente inteligente, saber que determinado sensor está conectado não
é suficiente. É necessário compreender o significado da informação produzida
por ele e permitir que essa informação seja utilizada por outros sistemas.
Um sensor
de ocupação, por exemplo, pode fornecer dados para iluminação, climatização,
segurança, gestão de espaços e eficiência energética simultaneamente.
Matter começa a evoluir para ambientes mais
complexos
A versão Matter
1.6, apresentada no contexto do Unify 2026, reforça essa direção.
Entre os
avanços estão melhorias na representação das características dos dispositivos,
maior visibilidade sobre seu estado operacional, melhor interação entre
diferentes ecossistemas e maior capacidade de contextualização das informações.
Pode
parecer uma evolução essencialmente técnica, mas ela aponta para uma questão
fundamental dos prédios inteligentes: os sistemas precisam compreender
melhor os dados que recebem uns dos outros.
Isso se torna
ainda mais relevante à medida que aplicações de analytics e inteligência
artificial passam a utilizar informações provenientes de diferentes subsistemas
do edifício.
Nesse
cenário, padrões abertos podem contribuir para criar uma camada comum de interoperabilidade
sobre tecnologias e sistemas que continuarão sendo especializados.
Segurança deixa de ser apenas uma questão do
dispositivo
Outro
aspecto relevante apresentado pela CSA envolve a segurança cibernética.
Tradicionalmente,
fabricantes de dispositivos IoT concentram seus esforços em mecanismos como
inicialização segura, armazenamento criptografado, autenticação e atualização
segura de firmware.
Essas
medidas continuam essenciais, mas existe uma questão adicional: o
dispositivo faz parte de um ecossistema muito maior.
Uma
instalação pode possuir um equipamento extremamente seguro e, ainda assim,
apresentar vulnerabilidades através do gateway, aplicativo móvel, plataforma em
nuvem ou infraestrutura utilizada para gerenciamento remoto.
Essa
visão está refletida no Product Security 1.1, evolução do programa de
certificação de segurança da CSA.
A
proposta amplia o conceito de certificação para além do dispositivo individual,
considerando o sistema IoT como um todo — incluindo aplicativos, gateways,
serviços em nuvem e processos remotos.
Para
edifícios inteligentes, essa abordagem é particularmente importante.
Quanto
maior o número de sistemas integrados, maior também é a superfície potencial de
ataque. A segurança precisa, portanto, ser tratada como atributo da arquitetura
completa e não apenas de cada equipamento isoladamente.
Edifícios comerciais entram definitivamente no
radar
Talvez o
aspecto mais significativo apresentado no Unify seja justamente a ampliação do
foco da CSA.
Edifícios
corporativos, hotéis, hospitais, universidades, instalações industriais,
centros logísticos e ambientes de varejo possuem um problema em comum: dezenas
ou centenas de sistemas precisam funcionar conjuntamente durante muitos anos.
Historicamente,
grande parte dessa integração depende de protocolos proprietários, gateways
específicos ou projetos customizados.
Padrões
abertos podem ajudar a reduzir essa complexidade.
Isso não
significa necessariamente substituir protocolos consolidados de automação
predial. Tecnologias como BACnet, KNX, DALI, Modbus e outras continuarão
desempenhando funções importantes em seus respectivos ambientes.
A
tendência aponta, porém, para arquiteturas cada vez mais abertas, nas quais
diferentes sistemas possam compartilhar informações de maneira padronizada.
A
consequência pode ser significativa: projetos mais flexíveis, menor dependência
de fornecedores específicos e redução dos custos de integração e manutenção ao
longo do ciclo de vida do edifício.
Aliro: interoperabilidade também no controle de
acesso
Outro
desenvolvimento importante dentro da CSA é o Aliro, iniciativa voltada à
padronização de credenciais digitais para controle de acesso.
A
proposta é facilitar a utilização de smartphones e dispositivos vestíveis como
credenciais, criando uma estrutura comum entre diferentes fabricantes e
plataformas.
A
aplicação vai muito além do mercado residencial.
Escritórios,
hotéis, hospitais, universidades, condomínios, fábricas e empreendimentos
multiusuários precisam administrar um número crescente de credenciais físicas e
digitais.
Um padrão
comum pode simplificar a implantação dessas soluções e, principalmente,
melhorar a interoperabilidade entre dispositivos móveis, leitores e sistemas de
controle de acesso.
O próximo passo do prédio inteligente
A
evolução apresentada pela CSA reforça uma transformação que já vem ocorrendo no
mercado.
Durante
muitos anos, um edifício era considerado automatizado quando possuía diversos
sistemas de controle. Hoje, isso já não é suficiente.
O
conceito de Building Intelligence pressupõe que iluminação,
climatização, segurança, energia, ocupação, acesso e demais sistemas possam
compartilhar dados e atuar de forma coordenada.
Nesse
contexto, a interoperabilidade passa a ser um dos elementos fundamentais da
infraestrutura digital dos edifícios.
A própria
agenda do Unify 2026 reforçou essa visão ao discutir como padrões abertos como
Matter, Zigbee e Aliro podem viabilizar aplicações que vão das casas
inteligentes às cidades inteligentes.
Para
fabricantes e desenvolvedores, isso também altera a lógica competitiva.
Além de
desempenho, funcionalidades e preço, ganha importância a capacidade de um
produto integrar-se facilmente a ecossistemas maiores, compartilhar
informações de forma padronizada e atender requisitos crescentes de segurança
cibernética.
Para
projetistas e integradores, surge outro desafio: pensar a automação não apenas
como um conjunto de sistemas independentes, mas como uma arquitetura
integrada de dados, dispositivos e serviços.
É
justamente nessa direção que parece caminhar a próxima geração dos prédios
inteligentes.
Fonte: artigo “Unify Event Shows the
CSA Isn’t Just About the Smart Home”, de Rich Nass, publicado originalmente
pela Embedded Computing Design em 22 de julho de 2026. Conteúdo
traduzido, contextualizado e adaptado para o mercado de automação e edifícios
inteligentes.

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